O Caminho Novo da Estalagem

Ao contrário do Caminho Velho, aberto de forma mais ou menos espontânea, o Caminho Novo para Minas Gerais nasceu de um projeto oficial da Coroa portuguesa. O Caminho Velho passava por Parati e levava três meses para chegar a Minas.

Para a abertura do Caminho Novo, foi contratado o sertanista Garcia Rodrigues. Entre 1722 e 1725, foi aberta uma variante do caminho de Garcia Rodrigues, encurtando ainda mais a nova via. Essa variante passava pela serra da Estrella e pelo Córrego Seco (Petrópolis), Pedro do Rio, Secretário e Sebollas (Inconfidência), indo encontrar o caminho original na região onde hoje está o município fluminense de Paraíba do Sul.

Em algumas décadas o Caminho Novo se tornaria a principal via de acesso do litoral sul do território colonial à região mineradora da capitania das Minas Gerais. Há registros históricos de que o tempo de viagem entre o Rio de Janeiro e Vila Rica se reduzira a dez dias.


Já nas primeiras décadas do século XVIII o Caminho Novo estava totalmente pontuado por roças, pousos, ranchos e povoados, todos eles formados e desenvolvidos como bases de apoio para os viajantes da via. Antes do Caminho Novo chegar à Pedro do Rio, passava na Fazenda Sumidouro. Fazenda essa, que veio a ser desmembrada e uma das partes passou a se chamar Granja Império.

Já em 1938 a Granja Império foi vendida e repartida em três. A casa principal, passou a pertencer a José Xavier de Mello. Todas as construções sofreram modificações, e já não lembravam a antiga fazenda, e a estradinha que passava em suas portas era agora chamada de Estrada dos Mineiros, ou Estrada Mineira.
E é aí nesse ponto da história que nós entramos. Sr. Xavier, meu avô, inspirado pela arquitetura francesa da região da Normandia, onde costumava passar suas férias, construiu um hotel. Isso foi em 1948, era um dos primeiros da região e recebeu o nome de Hotel Vivenda Florilda.

Para se chegar a ele na época, já vindo da Estrada União e Indústria, passava-se por uma ponte, atravessava-se a linha do trem e depois subia-se uma ladeira de pedras, igual as que ainda hoje vemos em Ouro Preto e Parati. Na minha infância essa ladeira era meu tormento já que os tombos de bicicleta e a cavalo eram comuns, pois as pedras eram muito lisas. Durante quase 40 anos, o Florilda acolheu pessoas que queriam passar momentos de descanso num ambiente charmoso que ora lembrava a famosa região francesa, ora remetia àquele pouso que abrigou tantos viajantes nos séculos anteriores.

Em alguma parte da década de 70, assumi a gerência do Florilda e continuei o trabalho que meu avô idealizou. Em 1986, após a abertura da nova estrada Rio - Juiz de Fora que descaracterizou a maior parte da região, transformamos o charmoso hotel em Spa. Demos a ele o nome de Spa Villa Rica, e assim fizemos de gordinhos tristes, magrinhos felizes. Em 2003 retomamos o caminho da hospedagem tradicional, e em homenagem a antiga estrada demos à pousada, o nome de Estalagem do Caminho Novo.
Desde então com a Estalagem do Caminho Novo, inspirada pelo meu avô, tento resgatar a cultura desse caminho que foi tão importante durante tanto tempo, e trazer o aconchego para esses que já não viajam a pé (ou que até viajam), mas que não abrem mão de um conforto e charme, que é peculiar aos que tem história.

Helô Bentes